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Dentro dos livros

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Quando ele perdeu o cheiro de chuva
que me acordava nos dias quentes,
escondi-me dentro dos livros
transformada em palavra escrita. 
A vida,
como uma frase evasiva,
fez os dias  terminarem sempre numa página arrancada
para que nunca se lesse
a paisagem dos meus pensamentos
recentes
ora incertos como arbitrárias vírgulas
ora suspensos por longas reticências...


Quando ele perdeu o cheiro de chuva
que arrancava a poesia dos meus desertos
nos transformamos apenas em
personagens de livros diferentes.


Aíla Sampaio

De sapatos novos

Numa esquina qualquer de abril, 
ela deixou a atenção que ele não lhe deu, 
os telefonemas que não retornou, 
e a vontade inútil de vê-lo com vontade dela... 
Largou a caixa vazia nos desvãos das horas 
perdidas e irrecuperáveis. 
"O que não foi é porque não deveria ter sido", resignou-se.
Viu que já era maio, com suas ruas claras 
e seu cheiro de flores. 
Sem vontades inúteis, olhou a paisagem de festa
e viu as respostas do tempo em seus sapatos novos…
Ficou alguns minutos em silêncio, 
depois jurou que teria cuidado 
para não os perder na escadaria errada mais uma vez!



Aíla Sampaio 

Via de mão única

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Habituei-me a ti como às ruas por onde passo automaticamente.  A mesma paisagem após o café,
a sempre mesma palavra a Deus por mais um dia,  a mesma vontade de outro olhar que esvaziasse a mesmice que viramos. 
Teu corpo, via de mão única do meu percurso diário,  escorregou do meu desejo...  fez-se apenas um quadro na parede da sala;  um móvel que (não) posso trocar de lugar. 


Aíla Sampaio

Meia-volta

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Eu sei que te prometi sorrisos ao meio-dia  e tardes de domingo menos monótonas.  Bem que eu tentei cumprir,  mas a vida deu meia-volta em nossas vontades,  e as nossas alegrias  nunca mais coincidiram.

Aíla Sampaio

Tu sabes

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Tu sabes a ordem das estrelas nas constelações  e o movimento dos ventos .
Sabes tudo das estações e dos climas amenos 
que ancoram nessas paisagens, decifras esfinges, acalmas vulcões, mas não és capaz de ler nos meus olhos
as marés cheias e os tornados 
que se fazem quando chegas e logo te vais... 


Aila Sampaio

um poema inconcluso

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Tu és palavra que se pronuncia no escuro,
um nome por detrás dos muros da memória,
aprisionando o presente no passado.
E eu,
rio em cheia a procurar um córrego
na claridade do dia,
um poema inconcluso
na solidão de um livro nunca lido.

Aíla Sampaio

como um verso

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Ainda sinto teu gosto de pêssego, 
tua manhã nascendo, 
tuas ondas quebrando em minhas areias. 

Ainda sobrevoas o meu sono 
e habitas as minhas palavras e os meus silêncios, 
como um verso que quer, 
de qualquer jeito,
 ser escrito!




Aíla Sampaio