Carta ao tempo II



Foto: Wiron Batista (1991)



Ah, tempo tu não tens sido relativo pra mim. Andas escasso sempre e tens me tirado de onde quero demorar-me. Tens arrancado as minhas melhores páginas para que eu escreva novas, quando tudo o que eu queria era passar aqueles rascunhos a limpo. Tá certo, eu precisava aprender que tu não voltas, mas por que não me deixaste entender isso, na hora adequada, pra que eu pudesse "salvar" os arquivos antes que tu os deletasses? Não quero a vida no preto e branco da pressa, soterrada nas buzinas dos carros, na lista do supermercado, nas contas a pagar. Não sei viver no vermelho dos desencontros e das decepções, nas obrigações afiveladas na agenda. Quero demorar-me no cheiro de lavanda dos lençóis, nos poemas de Drummond e Adélia, no café da manhã com os meus filhos, no abraço do homem que amo. Quero ser dona das minhas horas, senhora de meus minutos e arbitrar sobre as minhas pausas.... Não quero desavenças contigo, por isso te peço: vamos nos entender! Deixa que os meus momentos me pertençam, que eu decida a velocidade dos ponteiros do meu relógio!!!

Aíla Sampaio 




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